Muda Marés – Pertinencia Social Detalhada

A pertinência do projeto Muda Marés – Plastic Lab é justificada com alguns dados na perspetiva ambiental, do consumo e da gestão de resíduos em Portugal. Refletimos também sobre o potencial contributo do projeto para as necessidades locais e as políticas europeias na área da juventude.

A crise ambiental apenas desapareceu temporariamente do panorama mediático. Apesar de estarmos a ultrapassar uma crise mundial causada pela pandemia do COVID-19, as problemáticas ligadas ao meio ambiente e à (in)sustentabilidade da produção e consumo continuam-se a manter e a contribuir para as alterações climáticas. Será a crise pandémica uma resposta da mãe natureza aos maus tratos que a sujeitamos?

Novas ameaças para o ambiente com o COVID-19: Desta pandemia surgem novos tipos de resíduos no meio ambiente, incluindo nos mares: A organização não governamental Opération Mer Propre (Operação Mar Limpo) alertou recentemente que um desastre ecológico poderá estar iminente com a possibilidade de brevemente existirem mais mascaras do que alforrecas nas águas do mediterrâneo fruto da atividade do ser humano nos centros urbanos. Numa operação de limpeza no mediterrâneo, realizada em Maio de 2020, encontrou equipamentos de proteção individual a flutuar perto do fundo do mar, dos quais destacam-se as máscaras cirúrgicas e luvas de latex.

Os microplásticos chegaram a Portugal: A National Geographic publicou em 2019 um artigo  onde analisa a problemática do consumo de plástico na União Europeia e em Portugal. Aqui é indicado que um estudo publicado pela World Woldlife Fund em 2018 indicou que 72% do lixo marítimo encontrado em zonas industriais e de estuário são microplásticos, sendo a zona de Lisboa e Costa Vicentina consideradas as zonas mais afetadas, onde surgem as maiores densidades de microplásticos derivado da proximidade aos estuários do rio Tejo e Sado. Os microplásticos afetam negativamente a cadeia alimentar marinha e respetivamente os seres humanos, uma vez que se estima que 20% dos peixes de consumo de quotidiano tenham vestígios nos seus estômagos (WWF 2018).

A produção de resíduos de plástico em Portugal: No seguimento do artigo, surge a referência a estudo publicado em 2018 pela Sea At Risk sobre o consumo de plástico e de descartáveis relativo à vida quotidiana dos europeus. Sobre a situação de Portugal, é indicado um consumo anual aproximado de 40 milhões de embalagens descartáveis, 259 milhões de copos de café descartáveis, 721 milhões de garrafas de plástico, 1.000 milhões de palhinhas e 10.000 milhões de beatas de cigarros. Estes tipos de resíduos compreendem cerca de 51% do lixo encontrado em praias europeias. Também é destacado um relatório produzido em 2017 pela Agência Portuguesa para o Ambiente (APA) que menciona a produção diária de cada cidadão português: 1,32 KG de resíduos por dia, representando um aumento de 2,3% referente a 2016. O mesmo documento reporta que 83,5% dos resíduos urbanos recolhidos no mesmo ano estão associados a recolha indiferenciada.

O Oceano Atlântico poderá ter dez vezes plásticos: um novo estudo da Revista Nature feito por cientistas britânicos apresenta novas estimativas onde se calcula que a quantidade e plástico no Oceano Atlântico é pelo menos 10 vezes maior do que até agora se estimava com base na análise de amostras de agua até 200 metros de profundidade coletadas entre o Reino Unido e as Ilhas Malvinas (Falklands). Outro estudo confirma que a quantidade de microplásticos no oceano é subestimada nas «estimativas tradicionais».

A atual (in)sustentabilidade do modelo de reciclagem:  Em 2018, Portugal apenas reciclou 28,9% dos seus resíduos demonstrando uma taxa de reciclagem inferior à média europeia de 47% (Fonte: PORDATA – Eurostat, OCDE e INE 2018). Já em 2019, a associação ambientalista Zero apresentou um alerta que durante o ano de 2018 Portugal estaria apenas a reciclar 12% de todo o plástico produzido. Em resposta, o Ministério do Ambiente lançou um comunicado que contrapunha os valores apresentados, indicando que em 2018 reciclou-se 42,4% das 163 mil toneladas de plástico introduzidas no mercado. (fonte 1, fonte 2) Mais recentemente, em Junho de 2020, a Associação Zero volta a contestar os dados do ministério fundamentando-se nos dados oficiais providenciados pela APA sobre 2018, calculando uma taxa de reciclagem de 15% das 478 mil toneladas de embalagens de plástico provenientes dos resíduos das casas portuguesas. Em resposta, o Ministério do Ambiente indicou que tem dificuldades no cálculo da quantidade do plástico reconhecendo que nem todas as empresas declaram a quantidade de embalagens colocadas no mercado, o que poderá ocultar uma realidade pessimista sobre as taxas de reciclagem a nível nacional.

A importação de resíduos:  Desde 2017, Portugal vê um aumento da entrada de lixo proveniente de outros países, registando uma importação de 230 mil toneladas em 2019, ou seja, uma estimativa de 6% do total de resíduos produzidos a nível nacional. Em 2020 a Taxa de Gestão de Resíduos era onze euros por tonelada – um valor bem abaixo da média europeia entre oitenta e cem euros. (Fonte: PORDATA)

A mudança necessária:  A nível de prioridades a WWF, no relatório «Transparent 2020 – Mapping corporate action on plastic waste», apresentado em 2020, entre outras prioridades, reforça a necessidade de repensarmos e eliminarmos plásticos desnecessários da cadeia de produção, explorando alternativas reutilizáveis, de duplicarmos a taxa de reciclagem do plástico e recorrermos a ações coletivas que incentivem a criação de sistemas de economia circular. Também menciona a importância de utilizar mais plástico reutilizável em aplicações de embalamento e acondicionamento ou até recorrer a mais a bioplásticos provenientes de fontes sustentáveis.

Estratégia Nacional de Educação Ambiental (ENEA):  A ENEA prevê 16 medidas enquadradas por 3 objetivos estratégicos: 1) Educação Ambiental + Transversal; 2) Educação Ambiental Aberta e 3) Educação Ambiental Participada. Nestas medidas incluem-se a necessidade da preparação das populações para as alterações climáticas e de «melhorar a eficiência da utilização de recursos e para a promoção de economias circulares e de partilha menos consumidoras e desperdiçadoras, mais amigas do Ambiente e mais centradas nas especificidades dos territórios».

Responder às necessidades e preocupações de jovens locais: A Youth Coop promoveu o projeto LINHA – Participação Juvenil em Comunidades Locais em Agualva-Cacém envolvendo 232 em sessões de consulta, capacitação e debate. As consultas incidiram maioritariamente sobre alunos da Escola Secundária Ferreira Dias (Agualva) envolvendo um processo pedagógico na base de metodologias participativas de aprendizagem social e experiencial recomendadas pela comissão europeia.  Recorrendo a dinamias de grupo, roleplay e abordagens focadas na criação de um ambiente de partilha e discussão seguro e livre de julgamentos, desafiamos os jovens participantes a pensar e refletir, individualmente e em grupo, sobre as necessidades que identificam para as suas comunidades e para a área da juventude. A ligação com a realidade e as experiências do dia-a-dia dos e das jovens foram temáticas que surgiram naturalmente durante as várias fases do projeto, levando por vezes a debates bastante participados sobre questões relacionadas com a tolerância, cidadania, funcionamento da escola, bullying, entreajuda e participação na sociedade. No final de cada sessão, os participantes sumarizaram os seus pensamentos e necessidades em pequenos blocos de notas como contributos que seriam depois tratados e levados às autoridades locais. A área de maior interesse por parte dos e das participantes na consulta trata-se da «Proteção Ambiental» em que referem que gostariam que existissem mais áreas verdes nas urbanizações, um maior número de ações de proteção, limpeza e reflorestação ambiental, a proteção dos animais de rua e a promoção de hábitos sustentáveis ligados à reciclagem, energias renováveis e as ciclovias.

Contribuir para a Estratégia Europeia na Área da Juventude 2019-2027: A União Europeia tem vindo a desenvolver uma cooperação dedicada à política para a juventude com base nos princípios da participação ativa e da igualdade de acesso às oportunidades. A Estratégia Europeia da Juventude 2019-2027 surge para apoiar no envolvimento social e cívico, assegurando que os e as jovens tenham os recursos necessários para participar na sociedade.

A proposta pretende contribuir para a implementação da Estratégia da União Europeia para a Juventude que se centra nos domínios fundamentais do sector da juventude de «Envolver, Ligar e Capacitar»:

a) Envolver – O projeto pretende incentivar os jovens a terem um contacto direto com a comunidade pela participação em atividades enquadradas na programação de centros comunitários e ao desafiá-los a contactar e sensibilizar outros atores locais da sociedade como as escolas, os comerciantes e as famílias. As atividades propostas permitirão o jovem a desenvolver competências de comunicação, a criatividade e o pensamento critico sobretudo pela colaboração em todas as fases do processo comunitário de tratamento dos resíduos de plástico e na produção de novos objetos através do trabalho em equipa. Contribuirá para aumentar a motivação dos jovens de forma a que estejam mais dispostos para «aprender a participar», de forma a suscitar o interesse em outras ações participativas que ocorram nos centros comunitário, ajudando assim a prepararem-se para a participação num contexto local.

b) Ligar – Ao se envolverem nas atividades no contexto do Centro Lúdico das Lopas e da comunidade circundante, pretendemos incentivar o envolvimento de jovens em ações de solidariedade e voluntariado, sobretudo a nível local, mas também abrindo a porta para oportunidades internacionais, ampliando assim os seus horizontes. No contexto deste projeto a solidariedade acontece na forma como os participantes podem colaborar para beneficio da sociedade ao sensibilizarem vários elementos da sociedade sobre a importância das pessoas se envolverem no processo de gestão de resíduos urbanos e a mudarem comportamentos que reduzam o consumo desnecessário de produtos plásticos e respetivamente contribua para a diminuição da poluição ambiental consequentemente gerada.

c) Capacitar – Incentivar os jovens a tomar conta da sua vida pelo desenvolvimento de competências pessoais e interpessoais, sobretudo ligadas à participação cívica e ao desenvolvimento do pensamento critico. Criar e aprofundar pontos de contacto para jovens que sejam acessíveis e que proporcionem um vasto leque de serviços e informação, bem como oportunidades educacionais, culturais e ambientais. Ao participarem nas diferentes fases do processamento de resíduos plásticos, os participantes terão a oportunidade de desenvolver diversas competências práticas que poderão posteriormente utilizar em outras esferas da vida. Esta participação irá contribuir para a sensibilização dos jovens para a problemática da poluição do plástico, motivando os jovens a serem multiplicadores para a ação climática a nível local, começando pelas suas famílias.

Contribuir para o objetivo «Europa Verde e Sustentável»: A estratégia europeia para a juventude tem em conta os ciclos de diálogo estruturado com jovens decisores, investigadores e outras partes interessadas relevantes ligadas ao tema «Juventude na Europa». Como resultados desta consulta surgiram também os Objetivos para a Juventude Europeia, na qual destacamos o objetivo #10 «Europa Verde e Sustentável» que tem como objetivo «alcançar uma sociedade na qual todos os jovens estão ativos e formados em questões ambientais e fazer a diferença no dia a dia.»

O projeto que aqui apresentamos também pretende contribuir diretamente para este objetivo pelo envolvimento dos jovens em atividade prática que pretendem sensibilizar para o processo de reciclagem e permitir que os participantes conheçam na prática o efeito das suas ações no ambiente com base nas escolhas que fazem em casa. Assim queremos jovens mais informados sobre potenciais escolhas que levem a estilos de vida mais sustentáveis. Adicionalmente queremos empoderar os jovens a serem agentes da mudança para o desenvolvimento ambiental sustentável e disponibilizar oportunidades locais para os jovens contribuírem a nível de voluntariado ambiental e comunitário.